17 de dez de 2009

no title

calma...
não se zangue...
tudo é meio lento, na verdade
a vida ocorre lentamente
são dias que passam sob o peso das horas
os incessantes minutos que insistem em se arrastar
os amargos segundos que se enchem de desespero
a vida só corre nos momentos bons
quando deveria parar
e nessas horas imensas de solidão
e nesses minutos regados de desilusão
e nesses segundos amargos de questionamento
tudo é muito devagar
mas calma, eu estou aqui
não que essa simples presença seja alento para um coração perturbado
não que um colo seja o suficiente para curar uma ferida
mas não vou deixar que a lança do desapontamento continue atravessando seu coração tão puro
não deixarei que a força do desengano consuma seus pensamentos tão cheios de genialidade
não deixarei que a crueldade das coisas acabe com tudo o que você levou tantos anos para construir
vem, deita no meu colo
deixa eu enrolar os cachos dos seus cabelos
deixa eu te despentear
deixa eu arrancar com meus dedos todo o sofrimento da sua alma
calma,
enquanto você quiser,
estou aqui para te ajudar...

21 de out de 2009

insomnia

insônia é bom pra ficar sem dormir

deitado ao lado, o companheiro respira
é possível ouvir o som de suas células estabelecendo as trocas gasosas
entra oxigênio, sai gás carbônico
entra oxigênio, sai gás carbônico
entra oxigênio, sai gás carbônico
em cada uma das moléculas de seu corpo
infinitamente

do lado de fora, passarinhos adiantados não se cansam de cantar
um canto que só cansa
o canto perturbador dos solitários noturnos
e cada nota ecoa no fundo dos ouvidos
invade o cérebro e perturba a mente

nem a chuva é capaz de amansar os pensamentos
as gotas de vidro se chocam contra a capital de metal
e o estrondo de cada pingo é sentido como chumbo
e o tremor de cada trovão é convulsão de um corpo fora de lugar
e o clarão dos relâmpagos é um flash dos problemas correndo diante dos olhos que não querem se cerrar

a conta para pagar
a saudade da mãe, do pai, da irmã e da gata
a falsidade e a mentira de alguns
o trabalho que ficou para amanhã
o remédio pra tomar
as pessoas distantes e o desejo de um abraço
o medo da morte e da doença
o desejo da morte e da doença
devaneios, mentiras, verdades, dores, sentidos
bailam diante de olhos secos e confusos
ah, rivotril! como você faz falta aqui!

e cada problema se torna ainda maior
quando o sol da manhã começa a despertar
e a certeza de que o horário de verão só vem pra bagunçar
e a tristeza de ter que levantar
e a ansiedade de não poder fechar os olhos
e a angustia de não poder descansar
o desespero invade todos os sentidos como todos os raios do sol

nunca a música do despertador foi tão alta
e nunca a björk foi tão detestada
e nunca o frio foi tão intenso
e a conta pra pagar
a saudade da mãe, do pai, da irmã e da gata
a falsidade e a mentira de alguns
o trabalho que ficou para hoje
o remédio pra tomar
as pessoas distantes e o desejo de um abraço
o medo da morte e da doença
o desejo da morte e da doença
devaneios, mentiras, verdades, dores, sentidos e textos
fundem-se no corpo que se arrasta entre as gotas da tão constante garoa matinal
rumo ao ponto de ônibus
vão todos juntos
passar um dia perturbador, depois de uma noite perturbadora

Insônia é bom pra ficar sem dormir.

8 de out de 2009

mais um para o dé

me tira daqui
me rouba
me esconde
me leva de toda essa loucura
e desse mundo que não é o meu
apaga todo o caos, a falsidade, a mentira
a moralidade de quem se esconde atrás de máscaras
não quero ouvir mais nada
tampa meus ouvidos com seus beijos
me lembra que eu sou sua e que só o seu mundo é o meu

me subtraia desse planeta
não quero saber mais de tão pouco
quero parar de respirar superficialmente
não me deixa me perder nesse mar de futilidades
me arrasta para as profundezas
me prende em suas guelras de amor
engole minha boca com seus beijos
me lembra que eu sou sua e que só o seu mundo é o meu

me cobre com a sua transparência
me envolve em seu abraço
e me embrulha em seus cobertores de vida
me embala nas canções das suas palavras
me deixa sentir a sua história que é minha também
não quero mais sentir nada
não me deixa sentir mais nada
me lembra que eu sou sua e que só o seu mundo é o meu

24 de set de 2009

180º

minha vida passa em 180º.

São ciclos, que normalmente se encerram com uma nova mudança. um novo 180º.

esse é o início de mais um deles.

e se esse blógue vive desatualizado, a culpa é, em parte, desse novo começo.

no princípio, eram apenas sonhos, planos. de repente, a coisa tomou forma e a forma desenhou o medo. o pavor de navegar rumo ao desconhecido. mas, de mãos dadas, qualquer tormenta se torna garoa.

em 10 dias o plano tomou corpo, o medo virou combustível e uma nova realidade se desenhou diante de nossos olhos: somos, realmente, companheiros.

já temos as chaves e a partir de agora, o número 98 e o número 280 daquela rua que nos uniu são “as casas dos nossos pais”. Já não podemos chamá-las de “nossa”.

a "nossa casa", agora, fica no número 11. no apartamento 3. distante 4.700 metros das casas dos nossos pais. cinco minutos de carro e muitos anos de amadurecimento.

continuamos sendo filhos. mas, agora, também somos donos do nosso próprio lar.

uma guinada. um recomeço. uma nova vida. é o que ansiamos (e haja ansiedade em uma casa com dois portadores de transtorno do pânico!). é o que está acontecendo.

é só o começo e é bastante trabalhoso. são diversas coisas pra fazer, muita grana pra gastar, muito pepino pra resolver. mas temos dado conta de tudo.afinal, se embarcamos nessa é porque somos, acima de tudo, companheiros dispostos a fazer acontecer.

e vai!

13 de jul de 2009

instinto

fitou-o lateralmente. tinha por hábito jamais olhar de frente para qualquer coisa que lhe causasse admiração. tinha sido assim desde a escola: nunca mais olhou nos olhos da professora de português desde que ela lhe indicou o anti-cristo de nietzsche. continuou, desviando e direcionando o olhar para ele, num frenético bailado de sedução, enquanto pensava na sensação do fogo quando avassala um coração
bruscamente, tomou-o entre as mãos. uma invasão, quase um estupro. sentiu isso assim que a sensação do toque atingiu seu sistema nervoso central e se espalhou por seu córtex anterior. sentiu-se mal, assim, como se se arrependesse. mas passou logo, como toda a intensidade do mundo. nunca se arrependia de nada e aquela não seria a primeira vez. já que havia feito, o melhor era aproveitar cada instante de deleite. o toque macio encheu seus dedos. cada um deles, do menor ao polegar, se deliciava de prazer. sentia o sangue pulsando em suas veias, a cada instante com mais intensidade, em cada um dos vãos regados de suas mãos. aos poucos, a sensação diminuiu e, sentindo a necessidade de mais, esqueceu qualquer pensamento externo e centrou todas as suas vontades para aquele ato, para aquele momento de loucura e excitação.
num gesto de fria paixão, apertou-o e soltou-o, retomando por alguns instantes a consciência perdida. tremia. resolveu que, para alcançar o que tanto desejava, precisava ir mais longe. aquele prazer não era o suficiente. queria mais e seguiu seus instintos até onde eles a levaram. etapa por etapa, camada por camada, invadiu-o brutalmente. o prazer extasiava seus dedos que moviam-se loucamente e inundavam seus sentidos todos. ouvia luzes, via sons, tateava cores. mais uma vez, havia perdido a consciência. não sentia nenhuma intensidade, não sentia nenhum suspiro. vazio total. mas arfava. arfava, com toda a profundidade e sincronia, arfava. o toque em seus dedos era maior que o mundo. arfava e esquecia e enlouquecia ainda mais.
num súbito, tomada por toda a fúria que a sensação é capaz de proporcionar, descontrolou-se. rasgou-o, rasgou-o, rasgou-o. em muitos pedaços. tantos pedaços. e suspirou profundamente com um aperto que acelerou seu coração, até ele quase parar. enfim, sua alma se reecontrava com seu corpo.
recobrada de sua consciência, juntou os pedaços (tantos pedaços!) do recém-esquartejado lenço de papel multifolhado, que antes do ataque de fúria e prazer, enfeitava sua mesa entre tantos outros iguais. sempre iguais. enquanto recolhia os pedaços e os depositava calmamente na lixeira, lembrou-se do namorado também recém-esquartejado, congelando lentamente no freezer de sua casa... tantos pedaços... sorriu com o canto dos lábios e se dirigiu para a mesa do café.
era hora de tomar mais uma xícara para enfrentar o resto do dia monótono no trabalho

renaissance são paulo hotel
02/12/2006

17 de jun de 2009

às vezes me sinto um monstro

nada do que eu faça ou venha a fazer me tira as marcas do tempo que passei dentro do poço de caos, lama e sujeira em que me enfiei um dia
ainda que eu tenha saído dele, saí transtornada e suja
marcada para sempre
jamais voltarei a ser aquela que entrou, por livre e espontânea vontade, no pior dos mundos que alguém pode freqüentar
o mundo do prazer, da futilidade, da imbecilidade, da frieza, da maldade, da falsidade
dos falsos amigos, dos falsos prazeres, das falsas alegrias
o mundo das ilusões
um mundo tão atraente quanto doloroso
decide aventurar-me por estas terras para tentar encontrar quem eu era de verdade
caminhei por cada caminho sombrio
encontrei criaturas tenebrosas
passeei entre sombras e luzes de globos espelhados
em cubículos, banheiros, quartos sujos e desconhecidos
conheci sensações e desesperos
risos artificiais e dores eternas
ilusões de virtude e certezas de desespero
jamais me encontrei
e me perdi ainda mais
sai por escolha própria
uma mão me puxou para fora
uma mão, um par de olhos, uma cabeça e um abraço
em cima do poço, eu coloquei uma pedra
tampei e deixei lá dentro tudo o que um dia me fez rir falsamente e chorar desesperadamente
achei que a vida continuava do lado de fora
e que seguir errando era o melhor dos caminhos
o que eu jamais poderia imaginar é que, a cada passo, encontro uma pedra
e a cada pedra que chuto, o poço se abre novamente e traz de volta tudo o que eu queria esquecer
as marcas que um dia pensei ter deixado enterradas insistem em reaparecer em forma de feridas
feridas dolorosas que me fazem chorar, como se estivessem sendo abertas naquele instante
como se toda a dor que um dia eu senti retornasse e eu fosse obrigada a sentir novamente
não importa o que eu diga, não importa o que eu faça
as marcas de um passado que insiste em sempre cruzar o meu caminho jamais me deixaram esquecer o monstro que um dia eu fui

7 de jun de 2009

pausa para os comerciais

interrompemos a programação habitual desse blógue para fazer a divulgação do concurso musa do brasileirão da rede globo
apesar de não gostar de concursos e nem da rede globo, minha amiga manu é uma das três finalistas à musa do brasileirão pelo seu time do coração, o são paulo
como ela foi inscrita no concurso pelo meu tb amigo andré, faço questão de implorar à meia dúzia de leitores desse blógue q vote na manu!
para tanto, é só clicar aqui
é isso aí
vamos manu, vamos manu, pra musa do brasileirão!

25 de mai de 2009

minha palavra é fogo

minha palavra é fogo
incontrolavelmente saindo de mim
não se pode conter o ódio, a dor, a raiva
minhas palavras ardem em críticas àquilo que poucos são capazes de enxergar
o cinza da realidade
o negro das boas intenções
a maldade iminente do ser-humano

minha palavra é água
transbordando meus pensamentos e invadindo os seus ouvidos
não posso conter os rios de destruição que jorram em minha mente
minhas palavras são aquilo que você ignorar
são tragédias, são maldades, são realidades
e não adianta tentar me represar
minhas palavras são avassaladoras

são palavras de ódio por olhar para os lados e ver tanta gente ignorante
são palavras de dor por olhar para os lados e ver tanta gente limitada
são palavras de raiva por olhar para os lados e ver tanta gente medíocre
minhas palavras são carregadas de imagens daquilo que você não quer ver
me desculpe se te queimo com o que digo
você não enxerga e eu estou aqui para queimar seus olhos com o ardor da sua própria ignorância
me desculpe se te inundo com o que profiro
você vive num mundo que não existe e eu estou aqui para afogá-lo na mais dura e cruel realidade

você não é nada
nós não somos ninguém
o mundo é só dor
e não temos a quem recorrer

13 de mai de 2009

traição - parte 2

(a parte 1 tá aqui, ó!)

Almoçou radiante. Conversou com todo mundo. Tomou seu suco de maracujá. Contou com calma e controle da viagem da mulher para a copeira, que se ria. Ri do que? Da cara de quem? Ela também sabia. Todo mundo sabia. Tava dois a um pro destino. Todo mundo sabia, só ele insistia em não acreditar nos sinais. Tentou distrair-se, riu-se nervosamente e abriu o jornal. Algum sangue, algumas descobertas científicas. Corte de juros, mudanças na tributação da poupança e dos fundos de investimento. Tiraria vantagem disso, tudo em renda fixa mesmo. Epidemia, pandemia, máscaras. Tudo bobagem. Chegou na página das bobeiras mais bobas de todas. E lá estava o horóscopo. Impossível não ler tamanha bobagem. O cara escreve um monte de frases soltas, depois sorteia uma por uma e cola aí. “Dia propenso a frustrações. Mantenha a calma e evite se irritar”. Ainda bem que era uma babaquice. Apenas gente pobre e burra acreditava nessa estupidez de horóscopo. Coisa pra semi-analfabeto. Fechou o jornal. Abriu de novo. Só uma espiadela no signo da mulher. Tudo bobagem mesmo. “Abra-se para novidades. Ficar presa ao passado não vai levar a nada”. TUDO BOBAGEM, INFERNO! Não tinha porque se preocupar. Era só horóscopo. Só frases medíocres escritas por um otário para enlouquecer os outros.
Voltou ao trabalho com um nó na garganta. Não conseguiu fazer nada. Leu dezenas de horóscopos em dezenas de sites. Tudo baboseira. Procurou por serviços de detetive. Sigilo absoluto. Pagamento apenas após a entrega das provas. Câmera espião. Convênio com motéis. Não teve coragem de ligar em nenhum. O que diria? Acho que sou corno, você pode me ajudar? Cada minuto demorava horas para passar. E os sinais pulavam por todos os lados. Se houver notícia sobre a epidemia na página inicial, ela não tá me traindo. Se não tiver, ela tá. Nada de notícia. Em três sites diferentes. Talvez já não estivesse mais acontecendo. Jornais impressos sempre estão atrasados. O assunto do momento era outro. Era isso. Ela jamais o trairia. JAMAIS. Não com o amigo. A Fabiana e o amigo? NUNCA. Podia voar praquele lugar naquele segundo, só pra enforcar os dois e depois se jogar de alguma ponte. Mas não. Era tudo coisa da sua cabeça. Tava tudo bem. Amanhã ela ligaria, pediria para buscá-la no aeroporto e estaria sedenta por sua boca e ansiosa pelos seus braços e entrariam em qualquer motel de beira de estrada mesmo. E o moleque que ficasse esperando. Eles passariam a noite se amando. No meio da noite, ela dormindo, ele olhando. Veria uma mancha na nádega. Teria sido ele? Não, nunca deixou marca. Não assim. E sufocaria ela com o travesseiro ali mesmo e fugiria pra algum lugar longe e se esconderia para sempre. Da polícia e da sua consciência.
Estava na hora de ir embora. Mais uma tentativa com o elevador. A última, depois, pararia com bobagem. Se o elevador viesse de cima, ela estava traindo, se de baixo, não estaria. Alguém no 12º andar não gostava dele. MALDIÇÃO. Era melhor que o elevador despencasse. Que se fodessem todos ali dentro. Tinham todos vidas medíocres mesmo. Ninguém sentiria falta de viver num mundo como esse. Muito menos ele. Que por anos e anos achou que era feliz e agora, veja só, e agora descobria que sua vida era tão mesquinha como a de todos aqueles pobres infelizes e sem sorte ao seu lado. Que despencasse: corno merece morrer.
Dirigiu desesperado para a escola. Pegou o moleque sem nem olhá-lo na cara. Bufava raivoso. O moleque queria saber o que tava acontecendo, por que tantas fechadas, por que passar nos faróis vermelhos. Por alguns segundos pensou em contar tudo para ele, que a mãe não prestava, que nunca havia prestado, que tinha fugido com o melhor amigo, que torcia pra que ela nunca mais voltasse, que seria capaz de matá-la e matá-lo e depois matar-se a si mesmo. Mas encarou o menino enquanto pensava isso e tal qual o casmurro (por que diabos havia lido esse livro uma vez na vida?) viu em seu rosto os traços do amigo. Parou o carro na frente do prédio. Mandou o moleque subir. Ia comprar cigarros, voltava logo. O moleque subiu estranhando aquele pai que não conhecia.
Parou o carro na rua. Atravessou. Entrou na banca de jornal e pediu um maço do mais forte. Acendeu um. Fumou inteiro. Acendeu outro. Fumou inteiro. Apagou o terceiro na metade. Atravessou a rua e parou ao lado do carro. Acendeu o quarto cigarro e decidiu ligar. Apagou o cigarro na palma da mão e procurou o telefone da mulher na agenda do celular. Tomou o cuidado de colocar o celular no modo restrito. Ela não saberia quem estava ligando. Depois inventaria uma desculpa para se justificar. Apertou o botão verde e, com o coração batendo no hipotálamo, ouviu um, dois, três toques. Atendeu. A voz era grave demais. Conhecida demais. E aquilo doeu demais. Tudo o que não esperava era ouvir a voz do melhor amigo do outro lado do telefone. Vagabunda. Desgraçado. Traidores malditos. Pensou no que fazer. Pegar o avião. Comprar uma faca e ir buscá-los no aeroporto. Picaria os dois no caminho para casa e depois enfiaria o carro embaixo de algum caminhão. Não, sangrento demais. Melhor seria espancá-los até a morte e depois, sim, jogar o carro embaixo de algum caminhão. Livrar-se-ia da raiva antes de morrer, pelo menos. Melhor ainda, compraria um revólver. Daria vários tiros em cada um. Mas não mortais. Só para ferir. E os deixaria agonizando em alguma estradinha perdida. Depois, atiraria o carro de uma ponte. Pensou melhor, poderiam ser resgatados, não tinha graça. Do outro lado da linha, o amigo tinha cansado de dizer alô e ele nem reparara que a ligação havia terminado há alguns segundos. Pensou em todos os tipos possíveis de morte. Pensou em mutilação. Pensou, pensou. Passara todo o dia, só pensando. Talvez fosse melhor deixar pra lá. Fingir que nada acontecera. Deixar a vida seguir seu caminho, até ela pedir a separação. Jamais saberiam que ele sabia. Poderiam viver de aparências. Ele transaria com a mulher depois de ela transar com o outro. Mas não ligaria. Afinal, melhor amigo, não haveria problema.
Ou haveria. Jogou o celular e a chave do carro na calçada. Tomara a decisão mais difícil de sua vida: o problema era ele, estava com ele. Era ele quem ainda a amava, quem ainda a desejava. Não era justo estragar aquele amor que surgia. Era um bom homem, tinha um bom coração. Não precisava sofrer daquele jeito e não precisava de amor, de casa ou bens materiais para continuar vivendo. Largou tudo o que já tivera e decidiu seguir sua vida. Errando pelas ruas da cidade.
Não voltou para pegar o celular e não teve tempo de perceber que, no desespero de seu amor, havia ligado por engano para o celular de seu melhor amigo.

traição - parte 1

Acordou mal na primeira noite que dormira sozinho desde que se casara com a mulher perfeita. Sempre soube que ela era perfeita, desde a primeira vez em que se olharam nos olhos. Gostavam das mesmas coisas, falavam sobre todos os assuntos, ela era gostosa pra caralho, torciam pro mesmo time. Sim, era a mulher perfeita. Mas agora resolvera viajar a trabalho. Maldito novo emprego que os tornou tão distantes. A tal viagem tinha mexido com seus nervos. Dormira mal e tivera um pesadelo. Terrível: a mulher e o melhor amigo, tal qual no casmurro do grande mestre. Devia ter dormido pensando demais nisso. Aquela cama vazia de um lado lhe dava coisas. Mas era só isso, tinha pensado demais e acabou sonhando. Como diria o Freud, o sonho é a realização disfarçada de um desejo reprimido. Ou de um medo reprimido. Sim, era só sonho e já estava na hora de acordar o moleque pra se arrumar e ir pra escola.
Entrou no banho pensando nela. Será que já tinha acordado? Será que já tinha ido pro congresso? Será que não havia quartos separados e tinham colocado ela pra dormir com o Fábio? Afinal, melhor amigo do marido, não haveria problema. Pensamentos surgidos do inferno. Tentou controlá-los, impossível. De repente, foi atraído pela imagem estranha: aquele cabelo ali, aquela cor. Não era o dele, não era o dela. E o guri só tomava banho no seu próprio banheiro. Pensou na mulher sozinha arrumando as malas em casa, no dia anterior. Sozinha. De repente, ele chega, oferece uma ajuda. Ela pega as lingeries. Ela, gostosa pra caralho. Descontrole. Enfiam-se no chuveiro. Esquece o fio de cabelo grudado na parede. Ninguém repara. O marido enganado jamais desconfiaria.
Enxuga-se irritado com os próprios pensamentos. Imagina trazer alguém aqui. Porteiro veria, vizinhos veriam, gente fofoqueira e todos ficariam sabendo. Não se arriscaria assim. Mas ele, melhor amigo do marido, não haveria problema. Bobagens, pensamentos estúpidos. Ela era incapaz, mulher dedicada. Sentia-se descontrolado, pensando imagens, ouvindo sons. Mas tentava centrar-se.
Foi para a copa, onde o menino tomava café ouvindo uma dessas rádios de adolescente, cheias de música ruim e com piadinhas idiotas no intervalo. Essa era um trote. Alguém cujo apelido era alce. Insinuações de que a mulher o traia. A cidade toda sabia, menos o alce. Desligou o rádio irritado e mandou o moleque engolir o leite e ir chamando o elevador. Pegou o terno no quarto e sentiu o cheiro da mulher por todos os lados. Ele, o alce. Não, ele o paranóico, o obcecado. Ela, a dedicação em pessoa. Jamais faria isso pra ele, ainda mais pro filho, que, xingando, segurava a porta do elevador.
Largou o filho na porta da escola e dirigiu pro trabalho.
Só pensava nela. Jamais imaginou sentir-se assim. Achou que ia ser uma folga, um momento pra ficar sozinho e curtir. Talvez pôquer com os amigos, talvez futebol, quem sabe, até sinuca. Mas era pura obceção. Não tinha cabeça pra nada, nem pra enxergar o motoboy pelo retrovisor. “Corno!”. Até o motoboy sabia. Eram sinais demais, o sonho, o cabelo, a rádio, agora o motoboy. Até o casal no outdoor lembrava a mulher nos braços de outro. E aquele outro formava a silhueta do amigo. Pra que ele tinha que ter arrumado aquele emprego pra ela? Ficaria bem cuidando da casa. Não precisavam de dinheiro. Talvez já estivesse tudo combinado. Como tinha sido estúpido de cair naquela história de independência.
Entrou no estacionamento e, mais uma vez, tentou limpar os pensamentos. Era só coisa da sua cabeça. Quantos pensamentos idiotas. Balançou a cabeça negativamente e num relance viu um carro igual ao da mulher: mesmo modelo, mesma cor, mesmo adesivo da mesma concessionária. Encostado nele, um jovem casal se despedia calorosamente para começar mais um dia de trabalho. Desviou enfurecido da cena: maldita molecada sem escrúpulos. Ali era lugar? Putaria tem hora e lugar. E estacionamento de manhã não era lugar, nem hora.
Resolve fazer um teste. Sempre dava certo quando criança. Se o elevador já estiver no térreo, tá traindo. Se não estiver, num tá. Ganhou a bola de natal assim. Se o cachorro estivesse esperando no portão, ganharia, se não estivesse, não ganharia. Estava. O cachorro e o elevador. O coração apertado. Uma vontade de sumir, de sair andando e nunca mais voltar pra casa, olhar praquela cara de vadia. Ou voltar, enchê-la de porrada. Ela e o vagabundo traíra do caralho do amigo. Melhor amigo de bunda é pênis. Balançou a cabeça e virou os olhos vermelhos para os lados. Estava descontrolado. Onde já se viu acreditar numa coisa dessas? O elevador determinando a sua vida? Precisava se acalmar. Talvez pedir um suco de maracujá. Era tudo bobagem da sua cabeça.
Tentou trabalhar tranquilamente. Era impossível com tantos comentários. Parece que na novela das 8 um cara tinha descoberto que a mulher o traía. Perdoou a vagabunda. Ele jamais perdoaria. Podia ser a mais gostosa do mundo. Não perdoaria. Era outro sinal? Não, era bobagem. Novela não tem nada a ver com vida. Nem são baseadas em fatos reais. E só gente ignorante associa aquele monte de gente milionária com a sua relez condição de vida. Jamais poderia fazer tal associação.
Resolveu testar mais uma vez, talvez dessa vez tivesse sorte: se o chefe o chamasse pra almoçar, ela não estava traindo. Se não chamasse, estava. Todos os dias ele chamava pra almoçar. Impossível dar errado. Algum tempo depois o chefe avisou que precisava ir à reunião da escola do filho, talvez demorasse. Ele resolveu almoçar por ali mesmo. Pediria alguma coisa e leria o jornal. Antes de pular da janela do 11º andar.
Mais uma chance de testar a sorte, duas tudo bem, três, impossível. Ela era mulher de bem e tinha tudo em casa. Transavam divinamente. Ou diabolicamente, pensou sorrindo um riso diabólico. Não tinha motivo e tudo era bobagem de sua cabeça. Se o almoço chegasse em mais de meia hora, estava tudo certo. Ele não era traído e ela não era vaca. Se em menos tempo, tiro na cabeça. Dele, dela e do outro. Alguém já viu almoço chegar em menos de meia hora na avenida mais comercial da maior cidade da América Latina, ao meio dia? O almoço chegou quase uma hora depois. Estava tudo bem. Ela realmente era incapaz de traí-lo.
(continua...)

4 de mai de 2009

companheiros

gosto de enroscar os dedos nos cachos dos seus cabelos
porque estou enroscada nos seus pensamentos
gosto de emoldurar seu rosto no vermelho dos meus cabelos
porque faço parte do quadro da sua existência
gosto de entrelaçar minhas pernas nas suas pernas
porque sou caminhante dos lugares por onde você andou
gosto de ouvir seu coração batendo no meu ouvido
porque ouço os sentimentos que ele tem pra me contar
gosto de olhar no fundo dos seus olhos verdes
porque vejo o que só eles são capazes de enxergar
gosto da minha boca na sua boca
porque sinto os gostos que são seus
gosto de ter você dentro de mim
porque nesse momento, eu sou você e não me falta mais nada


enquanto estou nos seus braços
você é o veneno que me entorpece e me distrai
todos os problemas ainda existem
todas as angústias, os desesperos, as desesperanças
tudo ainda está lá
mas já não vivo hoje esperando morrer amanhã
vivo o hoje esperando ter um amanhã
pra me distrair e me entorpecer uma vez mais

foto: companheiros, por andrérnica

23 de abr de 2009

horizontes


olhar para o infinito é um privilégio
um privilégio que nos permite perceber
perceber que somos limitados
que imaginamos enxergar o horizonte
mas que o horizonte nunca é visto
como os prédios que limitam a visão física
nossos pensamentos medíocres nos impede de ver além
enxergar é mais que ver, que está além de olhar
nossas ideias vazias bloqueiam nossa visão do que está adiante
quando libertos do que nos limita, somos capazes de enxergar
e enxergar as coisas exatamente como elas são
sentar na areia da praia e, enquanto o sol torra os cabelos ao vento
assistir às linhas perderem-se no horizonte
ver a visão perder o foco até perder-se completamente
esvaziar-se de qualquer limitador
e, então, perceber que existe um infinito muito além dos prédios das grandes cidades
e dos pensamentos que te limitam e te bloqueiam

escrito a quatro mãos com andrérnica

12 de abr de 2009

fuga

quando você nasce com o buraco
não importa onde vá
não importa o que faça
não importa onde esteja
não importa com quem esteja
não importa o quão feliz você pareça
ele está sempre lá
um vazio imenso ocupando a alma
transformando todos os pensamentos
(por infinitamente bons que eles pudessem parecer)
em dor e desespero
quando ele está lá
(e sempre esteve)
a consciência de tudo é mais aguçada
a dor do mundo está dentro de você
não importa onde vá
não importa o que faça
não importa onde esteja
não importa com quem esteja
não importa o quão feliz você pareça
ele está sempre lá

mas, às vezes, a gente sabe que fugindo um pouquinho a coisa pode ser menos pior
eu sempre fujo
tomo calmantes e antidepressivos
e, assim, eu consigo dormir
agora estou colocando os calmantes e os antidepressivos na mala
pretendo não precisar deles enquanto estiver fugida
vou fugir do caos e da cidade grande
vou pro mato, pra praia
ver a lua cheia das pedras à beira mar
ouvir o canto dos pássaros silvestres e o barulho dos insetos
caminhar com os pés na água do mar
cozinhar, limpar, amar
vou fugir só um pouquinho
pra ver se o vazio me esquece um pouco
pelo menos durante uma semana

24 de mar de 2009

morrendo um pouco


estou ensaiando escrever aqui sobre a noite do show do radiohead desde ontem
vim mais uma vez, abri o editor e fiquei olhando pra ele, pensando em por onde começar
larguei o editor aberto e fui dar uma olhada nos recados do orkut e tinha um da ká lá:

"ainda tô digerindo o show. talvez daqui uns dois anos eu tenha digerido. radiohead é assim: tudo que eles fazem demora pra ser digerido. eles estão a frente do nosso tempo."

acho que mais que isso
eles estão além do nosso tempo
a questão é que o show realmente está em digestão
tudo o que aconteceu naquela noite, e foi uma noite maravilhosa, ainda está em digestão
pareço uma cobra que engoliu um boi inteiro
se tudo der certo eu vou ficar durante alguns anos com essa noite engasgada aqui
ainda bem
vai ser a primeira vez na vida que tenho uma coisa boa engasgada na garganta
_________________________________________________________
exit music (for a film)
wake... from your sleep
the drying of your tears
today... we escape
we escape
pack and get dressed
before your father hears us
before... all hell... breaks loose
breathe... keep breathing
don't lose... your nerve
breathe... keep breathing
i can't do this... alone
sing us a song
a song to keep us warm
there's such a chill
such a chill
you can laugh
a spineless laugh
we hope your rules and wisdom choke you
now we are one
in everlasting peace
we hope that you choke... that you choke
we hope that you choke... that you choke
we hope that you choke... that you choke
(ainda mais especial do que tudo o que pode ser especial...)

18 de mar de 2009

desabafo para o nell

hj eu acordei com aquele característico nó na garganta
característico mesmo
qdo ele aparece, eu sei q vai ser dia de querer morrer
não adianta fazer sol, não adianta chover
nada tira ele daqui
a garganta amarra pq o estômago está ao contrário
e o estômago só vira porque o resto do corpo tá vazio
a cabeça tá vazia, a alma tá vazia
hoje eu tô de calça social preta, de camisa xadrezinha preta e branca, sapatilha vermelha
e alma negra
hoje nada clareia meu humor
nada cura a dor
nada, nada
eu sei porque eu tô assim
mas prefiro esquecer que a culpa é minha
sabe, hoje eu tive saudades de quando eu era adolescente e me cortava
bons tempos aqueles
hoje é mais difícil
ao invés de me cortar, eu me torturo e isso dói muito mais

ps: talvez eu suma por hoje, talvez eu suma do mundo, talvez eu saia andando depois do trabalho e me procure, até me achar. só pra encher a minha cara de porrada e jogar o corpo inerte no mar

in: safra 2003 - google groups - topic: e o almoço? - 18.03.09 - 13:16

14 de mar de 2009

vazio

o desespero da consciência
o vazio dos fatos
o silêncio dos atos
a insônia dos males
a dor das formas
o sentido subentendido
o desespero criado
o erro irremediável
a solidão do sentir

a verdade

às vezes é melhor estar só
só com a dor de existir
porque quando a dor é consciência
a realidade se torna ainda menos tolerável

9 de mar de 2009

poor song

dentro do carro
a chuva
os relâmpagos iluminando os olhares
olhos nos olhos
olhos castanhos dentro de olhos verdes
profundos olhos verdes
temerosos olhos verdes
entre sons trovões, a trilha sonora é yeah yeah yeahs
a trilha sonora é a poor song
baby i'm afraid of a lot of things but
i ain't scared of loving you
and baby i know you're afraid of a lot of things
but don't be scared of love...
'cause people will say all kinds of things
but that don't mean a damn to me
'cause all i see is what's in front of me
and that's you
well i've been dragged all over the place
i've taken hits time just don't erase
and baby i can see you've been fucked with too
but that don't mean your loving days are through'
cause people will say all kinds of things
but that don't mean a damn to me
'cause all i see is what's in front of me
and that's you
well i may be just a fool
but i know you're just as cool
and cool kids, they belong together
uma canção pobre para consolar duas pobres almas

6 de mar de 2009

o mais belo suicídio


essa é evelyn mchale no dia primeiro de maio de 1947
ela tinha 23 anos quando pulou do observatório localizado no 86º andar do empire state building, após terminar com o noivo
caiu em cima de uma limosine que, por sorte, não era ocupada por ninguém
deixou pra trás um casaco, a carteira com algum dinheiro e seu estojo de maquiagem
essa é, sem dúvida, uma das imagens mais poéticas que já vi na vida
morreu por amor
esmagou um carro de luxo
deixou pra trás a proteção, o material e a feminilidade
e ainda assim, 86 andares depois, estava serena, completa, feminina
linda
e
poeticamente morta
a história completa pode ser lida aqui, dica do genial cris

3 de mar de 2009

grande irmão romântico

como seria se o big brother se passasse numa época romântica?

na beira da poça de lama, enquanto os porcos reviram o lixo em busca de restos do que comer, o casal recém-formado troca juras de amor:
- e se eu delegar a você todas as minhas perspectivas? e se eu passar a ver a vida por meio dos seus olhos? e se eu te entregar o meu corpo e a minha alma? você vai saber o que fazer com isso?
- e se você for a minha escolhida? e se eu dedicar a você todas as minhas obras e as minhas conquistas? e se eu viver a minha vida lutando pela sua? você vai saber o que fazer com isso?
- eu estico meus braços além do universo para afagar a sua cabeça nos seus momentos de batalha. eu cubro de beijos seus cabelos revoltos em guerra distantes contra você mesmo. eu espero você voltar de suas lutas contra moinhos imaginários. eu espero com seu coração em minha boca. e se você nunca voltar, eu continuarei esperando.
- eu sigo errando. me encontrando e me perdendo. não é justo condenar-te a isto.
- nenhuma condenação é injusta. e se for para ser condenada por você, que você seja o juiz do meu destino e o dono da minha razão.

corte para o merchandising de anti-depressivo

26 de fev de 2009

c'est la vie

ensaio a dias escrever sobre a vida
assim, a vida e suas contradições
mas, a cada dia que passa, a vida me surpreende mais e torna ainda mais impossível escrever sobre ela
hoje foi um dia assim
e fora a vontade de encher a cara até entender tudo, só posso dizer que estou surpresa, assustada, preocupada, mas feliz
por mais contraditório que isso possa parecer
afinal, eta vidinha contraditória essa que a dita cuja me deu!

16 de fev de 2009

caminhar sob a garoa fina

caminhar sob a garoa fina
adoro a garoa fina que escorre como uma pequena lâmina sob meu corpo atormentado
na sexta, andamos na garoa
no sábado, andamos na garoa
ontem, andamos na garoa
andamos sob a garoa na madrugada de ontem
com o coração aos pulos, com uma tensão no ar, entre sorrisos, beijos, abraços e comentários de que o mau caminho é sempre o melhor caminho
ainda sinto o gosto, ainda sinto o cheiro e apesar da segunda-feira densa e cinzenta, as sensações do fim de semana não querem passar
andar sob a garoa fina, ouvindo amy winehouse
as lágrimas escorrendo com a chuva
a atmosfera densa enchendo o coração
mas não é angustia, não é tristeza
não é fossa, não é tensão
eu nem quero saber se continuo sendo amada no outro dia de manhã
tenho desperdiçado tantas lágrimas que chorar lágrimas de alegria é o menor dos desperdícios
andando na garoa, eu ainda sorrio, entre chuva e lágrimas, o risinho da noite anterior
da madrugada, do fim de semana todo
andando pela garoa, vou levando as marcas do fim de semana
o dedo cortado, a mão queimada, o coração poluído, o corpo dolorido, a garrafa de gatorade pra curar a ressaca
andando na garoa, sei que prefiro sentir frio
o frio é plenamente controlável
o calor é invasivo
não há o que se fazer contra ele
e eu odeio perder o controle
se o frio incomoda, é só colocar uma blusa, procurar proteção
o calor invade e permeia todas as coisas
derrete o gelo, esquenta a água
odeio ser invadida
eu gosto da neblina e do frio e da chuva leve q não molha
mas gosto ainda mais de dias extremamente ensolarados
sem nuvens
e gelados, mto gelados
com aquele vento q corta o rosto sem proteção
me dá vontade de andar na rua, sem direção
e me procurar, até me encontrar...
caminhando na garoa, pensando sobre o clima, sobre o sol e o cinza, sobre pessoas e sensações, percebo o quanto seres especiais são capazes de transformar sentimentos
andando pela garoa fina, às nove da manhã de uma segunda-feira cinza da capital paulista, percebo que o sorriso entre lágrimas de hoje só é possível porque, de atalho em atalho, a morte sempre abre mais uma cerveja e acende mais um marlboro

10 de fev de 2009

desassossego

é esse desespero
é essa vontade
é essa covardia
é essa expectativa
é essa inquietação
é essa tristeza
é essa emoção
é essa ansiedade
é esse monte de rivotril
é esse monte de fluoxetina
são esses montes de pensamentos
são esses montes de confusões
são esses montes de razões
são essas toneladas de emoções
são esses nós na garganta
são esses frios no estômago
são esses tremores na mão
são esses calores no sexo
são esses pesos nas pernas
é querer correr
é querer gritar
é querer fugir
é querer esconder
é querer esquecer
é querer morrer
é querer sentir
é querer ignorar
é querer temer
é querer calar
é temer escrever o que não pode ser lido
é temer escrever o que vai ser lido
é temer ser lido o que se quer escrever
é temer ser lido o que não pode ser escrito
é o subentendido
são as entrelinhas
é escrever para ser entendida
e temer a escrita
(porque as palavras ditas
e as palavras escritas
contêm a verdade que se quer esconder)

eis as causas do meu desassossego

"Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações. Compreendo bem as bordadoras por mágoa e as que fazem meia porque há vida. Minha tia velha fazia paciências durante o infinito do serão. Estas confissões de sentir são paciências minhas. Não as interpreto, como quem usasse cartas para saber o destino. Não as ausculto, porque nas paciências as cartas não têm propriamente valia. Desenrolo-me como uma meada multicolor, ou faço comigo figuras de cordel, como as que se tecem nas mãos espetadas e se passam de umas crianças para as outras. Cuido só de que o polegar não falhe o laço que lhe compete. Depois viro a mão e a imagem fica diferente. E recomeço." Livro do Desassossego (Fernando Pessoa)

2 de fev de 2009

l'amour

esses tempos, uma discussão tem sido recorrente em todos os meus círculos de amizade: relacionamentos. estou solteira há pouco mais de um ano e, sinceramente, às vezes sinto falta de alguém q se importe desesperadamente comigo, q me ame do jeito q eu sou, q cuide d mim, q faça sexo comigo sempre q der. aí, eu lembro q tenho meus amigos e, pronto, fico satisfeita plenamente. encontro neles tudo o q preciso.
nessas discussões, um tema me chama a atenção: a aversão q as pessoas têm ao seu passado e ao passado do outro. como se os ex-namorados e namoradas, as baladas, tudo o q a pessoa viveu antes fosse uma mancha, um erro, algo a ser apagado pra sempre e esquecido.
não sei.
eu não aceitaria isso.
meu passado, meu presente, condenáveis ou não, foram e estão sendo. me fizeram o q sou. contribuíram em cada milímetro na construção do q eu penso e sinto. e serão sempre importantes pra mim. por pior q tenham sido, jamais aceitaria apagar o meu passado ou o q estou vivendo hoje.
por isso, hj, qdo meu ipod escolheu para tocar non, je ne regrete rien, com a edith piaf, eu me emocionei e chorei voltando pra casa
não tenho vergonha do meu passado e não tenho vergonha d chorar em público
não tenho vergonha de sentar aqui e admitir que eu choro ouvindo música
ainda mais uma música q fala sobre o passado e o presente

http://br.youtube.com/watch?v=kFRuLFR91e4

non, rien de rien,
non, je ne regrette rien.
ni le bien qu'on m'a fait,
ni le mal, tout ça m'est bien égal.
non, rien de rien,
non, je ne regrette rien,
c'est payé, balayé, oublié,
je me fous du passé.
avec mes souvenirs,
j'ai allumé le feu.
mes chagrins mes plaisirs,
je n'ai plus besoin d'eux.
balayés mes amours,
avec leurs trémolos.
balayés pour toujours
je repars à zéro...
non, rien de rien,
non, je ne regrette rien.
ni le bien qu'on m'a fait,
ni le mal, tout ça m'est bien égal.
non, rien de rien,
non, je ne regrette rien.
car ma vie, car mes joies,
pour aujourd'hui
ça commence avec toi

porque a gente não pode ter vergonha de ser quem é
e porque a gente não pode ter vergonha de recomeçar, quantas vezes forem necesárias

25 de jan de 2009

completa

vem e me enche inteira
afoga as suas mágoas nas minhas mágoas
e juntos, seremos toda a mágoa do mundo

vem e me enche inteira
penetra as suas tristezas nas minhas tristezas
e juntos, seremos toda a tristeza do mundo

vem e me enche inteira
mergulha as suas insatisfações nas minhas insatisfações
e juntos, seremos toda a insatisfação do mundo

vem e me enche inteira
enfia as suas revoltas nas minhas revoltas
e juntos, seremos toda a revolta do mundo

vem e me enche inteira
chora as suas lágrimas nas minhas lágrimas
e juntos, teremos toda a lágrima do mundo

vem e me enche inteira
mistura seus medos nos meus medos
e juntos, teremos todo o medo do mundo

vem e me enche inteira
coloca seus traumas nos meus traumas
e juntos, teremos todos os traumas do mundo

vem e me enche inteira
tece seus desejos nos meus desejos
e juntos, teremos todos os desejos do mundo

vem e me enche inteira
porque com você
eu me sinto completa

21 de jan de 2009

change?

em épocas em q o fenômeno obama tem mais destaque na tevê q o ronaldo fenômeno (seria o começo da era em q a política será mais importante q o futebol??), resolvi provar o gostinho de ser "fenômena" por um dia e me transformei em:



obama versão alcoólatra

e obama versão beijoqueira

créditos: dica da lia

criação: http://obamiconme.pastemagazine.com/

17 de jan de 2009

rê bordosa

trilha sonora para a rinite de sábado de manhã

http://br.youtube.com/watch?v=sur0HptEq4M

hoje eu não vou sair de casa
hoje eu não vou pisar na rua
hoje eu não vou trocar de roupa
não vou sair de casa
hoje eu não quero ver a rua
hoje eu não quero confusão
hoje eu não quero ver pessoas
não vou sair de casa
acho um pouco bom
acho um pouco bom
acho um pouco bom
acho um pouco bom
hoje eu vou ficar ouvindo música
hoje eu vou ficar aqui dançando
hoje eu vou ficar aqui na minha
eu vou ficar sozinha
hoje eu vou ficar aqui dançando
hoje eu vou ficar aqui dançando
hoje eu vou ficar aqui dançando
(ah tá!)
acho um pouco bom
acho um pouco bom
acho um pouco bom
acho um pouco bom
(trim !!)
ah não vou entender
(trim !!)
eu não vou atender
(trim !! trim !!)
eu não quero atender!
(trim !!)

(acho um pouco bom - cansei de ser sexy)

11 de jan de 2009

ânsia

vc já teve vontade d enfiar o dedo na garganta e vomitar vc mesmo?

eu tenho