26 de mar. de 2010

estranho prazer #1

após passar toda a tarde tricotando, dona dirce espera dar seis da tarde pra sair de casa carregando panelas, potes, vidros, roupas, periquito e papagaio dentro de imensas sacolas plásticas e de tecido. arrasta tudo até o ponto mais próximo e dá sinal pro ônibus mais cheio que avista. Faz questão de aceitar o lugar que a mulher de 35 anos, (que acorda às 5:30 pra arrumar, dar café e levar os dois filhos à escola, passa o dia trabalhando de pé e agachada numa loja de sapatos do outro lado da cidade, volta pra casa só pra fazer o jantar, arrumar a casa, cuidar dos filhos e dormir as suas tradicionais 4 horas de sono) lhe oferece. desce num ponto próximo ao centro da cidade. Dá uma volta no quarteirão carregando suas coisas. senta-se por cinco minutos numa praça cheia apenas para descansar e volta para o ponto, para pegar mais um ônibus lotado em direção à sua casa.torce para chegar cedo. afinal, amanhã, quando der sete e meia da manhã, recomeçará sua via crucis de uma hora e meia até o centro da cidade com seus pertences, para dar a mesma volta no quarteirão, sentar por cinco minutos na praça apenas para descansar antes de pegar o ônibus lotado de volta para casa.os filhos e netos acham que ela está caducando.
o que eles não sabem é que ela sente um estranho prazer em se aproveitar da bondade alheia.

17 de dez. de 2009

no title

calma...
não se zangue...
tudo é meio lento, na verdade
a vida ocorre lentamente
são dias que passam sob o peso das horas
os incessantes minutos que insistem em se arrastar
os amargos segundos que se enchem de desespero
a vida só corre nos momentos bons
quando deveria parar
e nessas horas imensas de solidão
e nesses minutos regados de desilusão
e nesses segundos amargos de questionamento
tudo é muito devagar
mas calma, eu estou aqui
não que essa simples presença seja alento para um coração perturbado
não que um colo seja o suficiente para curar uma ferida
mas não vou deixar que a lança do desapontamento continue atravessando seu coração tão puro
não deixarei que a força do desengano consuma seus pensamentos tão cheios de genialidade
não deixarei que a crueldade das coisas acabe com tudo o que você levou tantos anos para construir
vem, deita no meu colo
deixa eu enrolar os cachos dos seus cabelos
deixa eu te despentear
deixa eu arrancar com meus dedos todo o sofrimento da sua alma
calma,
enquanto você quiser,
estou aqui para te ajudar...

21 de out. de 2009

insomnia

insônia é bom pra ficar sem dormir

deitado ao lado, o companheiro respira
é possível ouvir o som de suas células estabelecendo as trocas gasosas
entra oxigênio, sai gás carbônico
entra oxigênio, sai gás carbônico
entra oxigênio, sai gás carbônico
em cada uma das moléculas de seu corpo
infinitamente

do lado de fora, passarinhos adiantados não se cansam de cantar
um canto que só cansa
o canto perturbador dos solitários noturnos
e cada nota ecoa no fundo dos ouvidos
invade o cérebro e perturba a mente

nem a chuva é capaz de amansar os pensamentos
as gotas de vidro se chocam contra a capital de metal
e o estrondo de cada pingo é sentido como chumbo
e o tremor de cada trovão é convulsão de um corpo fora de lugar
e o clarão dos relâmpagos é um flash dos problemas correndo diante dos olhos que não querem se cerrar

a conta para pagar
a saudade da mãe, do pai, da irmã e da gata
a falsidade e a mentira de alguns
o trabalho que ficou para amanhã
o remédio pra tomar
as pessoas distantes e o desejo de um abraço
o medo da morte e da doença
o desejo da morte e da doença
devaneios, mentiras, verdades, dores, sentidos
bailam diante de olhos secos e confusos
ah, rivotril! como você faz falta aqui!

e cada problema se torna ainda maior
quando o sol da manhã começa a despertar
e a certeza de que o horário de verão só vem pra bagunçar
e a tristeza de ter que levantar
e a ansiedade de não poder fechar os olhos
e a angustia de não poder descansar
o desespero invade todos os sentidos como todos os raios do sol

nunca a música do despertador foi tão alta
e nunca a björk foi tão detestada
e nunca o frio foi tão intenso
e a conta pra pagar
a saudade da mãe, do pai, da irmã e da gata
a falsidade e a mentira de alguns
o trabalho que ficou para hoje
o remédio pra tomar
as pessoas distantes e o desejo de um abraço
o medo da morte e da doença
o desejo da morte e da doença
devaneios, mentiras, verdades, dores, sentidos e textos
fundem-se no corpo que se arrasta entre as gotas da tão constante garoa matinal
rumo ao ponto de ônibus
vão todos juntos
passar um dia perturbador, depois de uma noite perturbadora

Insônia é bom pra ficar sem dormir.

8 de out. de 2009

mais um para o dé

me tira daqui
me rouba
me esconde
me leva de toda essa loucura
e desse mundo que não é o meu
apaga todo o caos, a falsidade, a mentira
a moralidade de quem se esconde atrás de máscaras
não quero ouvir mais nada
tampa meus ouvidos com seus beijos
me lembra que eu sou sua e que só o seu mundo é o meu

me subtraia desse planeta
não quero saber mais de tão pouco
quero parar de respirar superficialmente
não me deixa me perder nesse mar de futilidades
me arrasta para as profundezas
me prende em suas guelras de amor
engole minha boca com seus beijos
me lembra que eu sou sua e que só o seu mundo é o meu

me cobre com a sua transparência
me envolve em seu abraço
e me embrulha em seus cobertores de vida
me embala nas canções das suas palavras
me deixa sentir a sua história que é minha também
não quero mais sentir nada
não me deixa sentir mais nada
me lembra que eu sou sua e que só o seu mundo é o meu

24 de set. de 2009

180º

minha vida passa em 180º.

São ciclos, que normalmente se encerram com uma nova mudança. um novo 180º.

esse é o início de mais um deles.

e se esse blógue vive desatualizado, a culpa é, em parte, desse novo começo.

no princípio, eram apenas sonhos, planos. de repente, a coisa tomou forma e a forma desenhou o medo. o pavor de navegar rumo ao desconhecido. mas, de mãos dadas, qualquer tormenta se torna garoa.

em 10 dias o plano tomou corpo, o medo virou combustível e uma nova realidade se desenhou diante de nossos olhos: somos, realmente, companheiros.

já temos as chaves e a partir de agora, o número 98 e o número 280 daquela rua que nos uniu são “as casas dos nossos pais”. Já não podemos chamá-las de “nossa”.

a "nossa casa", agora, fica no número 11. no apartamento 3. distante 4.700 metros das casas dos nossos pais. cinco minutos de carro e muitos anos de amadurecimento.

continuamos sendo filhos. mas, agora, também somos donos do nosso próprio lar.

uma guinada. um recomeço. uma nova vida. é o que ansiamos (e haja ansiedade em uma casa com dois portadores de transtorno do pânico!). é o que está acontecendo.

é só o começo e é bastante trabalhoso. são diversas coisas pra fazer, muita grana pra gastar, muito pepino pra resolver. mas temos dado conta de tudo.afinal, se embarcamos nessa é porque somos, acima de tudo, companheiros dispostos a fazer acontecer.

e vai!

13 de jul. de 2009

instinto

fitou-o lateralmente. tinha por hábito jamais olhar de frente para qualquer coisa que lhe causasse admiração. tinha sido assim desde a escola: nunca mais olhou nos olhos da professora de português desde que ela lhe indicou o anti-cristo de nietzsche. continuou, desviando e direcionando o olhar para ele, num frenético bailado de sedução, enquanto pensava na sensação do fogo quando avassala um coração
bruscamente, tomou-o entre as mãos. uma invasão, quase um estupro. sentiu isso assim que a sensação do toque atingiu seu sistema nervoso central e se espalhou por seu córtex anterior. sentiu-se mal, assim, como se se arrependesse. mas passou logo, como toda a intensidade do mundo. nunca se arrependia de nada e aquela não seria a primeira vez. já que havia feito, o melhor era aproveitar cada instante de deleite. o toque macio encheu seus dedos. cada um deles, do menor ao polegar, se deliciava de prazer. sentia o sangue pulsando em suas veias, a cada instante com mais intensidade, em cada um dos vãos regados de suas mãos. aos poucos, a sensação diminuiu e, sentindo a necessidade de mais, esqueceu qualquer pensamento externo e centrou todas as suas vontades para aquele ato, para aquele momento de loucura e excitação.
num gesto de fria paixão, apertou-o e soltou-o, retomando por alguns instantes a consciência perdida. tremia. resolveu que, para alcançar o que tanto desejava, precisava ir mais longe. aquele prazer não era o suficiente. queria mais e seguiu seus instintos até onde eles a levaram. etapa por etapa, camada por camada, invadiu-o brutalmente. o prazer extasiava seus dedos que moviam-se loucamente e inundavam seus sentidos todos. ouvia luzes, via sons, tateava cores. mais uma vez, havia perdido a consciência. não sentia nenhuma intensidade, não sentia nenhum suspiro. vazio total. mas arfava. arfava, com toda a profundidade e sincronia, arfava. o toque em seus dedos era maior que o mundo. arfava e esquecia e enlouquecia ainda mais.
num súbito, tomada por toda a fúria que a sensação é capaz de proporcionar, descontrolou-se. rasgou-o, rasgou-o, rasgou-o. em muitos pedaços. tantos pedaços. e suspirou profundamente com um aperto que acelerou seu coração, até ele quase parar. enfim, sua alma se reecontrava com seu corpo.
recobrada de sua consciência, juntou os pedaços (tantos pedaços!) do recém-esquartejado lenço de papel multifolhado, que antes do ataque de fúria e prazer, enfeitava sua mesa entre tantos outros iguais. sempre iguais. enquanto recolhia os pedaços e os depositava calmamente na lixeira, lembrou-se do namorado também recém-esquartejado, congelando lentamente no freezer de sua casa... tantos pedaços... sorriu com o canto dos lábios e se dirigiu para a mesa do café.
era hora de tomar mais uma xícara para enfrentar o resto do dia monótono no trabalho

renaissance são paulo hotel
02/12/2006

17 de jun. de 2009

às vezes me sinto um monstro

nada do que eu faça ou venha a fazer me tira as marcas do tempo que passei dentro do poço de caos, lama e sujeira em que me enfiei um dia
ainda que eu tenha saído dele, saí transtornada e suja
marcada para sempre
jamais voltarei a ser aquela que entrou, por livre e espontânea vontade, no pior dos mundos que alguém pode freqüentar
o mundo do prazer, da futilidade, da imbecilidade, da frieza, da maldade, da falsidade
dos falsos amigos, dos falsos prazeres, das falsas alegrias
o mundo das ilusões
um mundo tão atraente quanto doloroso
decide aventurar-me por estas terras para tentar encontrar quem eu era de verdade
caminhei por cada caminho sombrio
encontrei criaturas tenebrosas
passeei entre sombras e luzes de globos espelhados
em cubículos, banheiros, quartos sujos e desconhecidos
conheci sensações e desesperos
risos artificiais e dores eternas
ilusões de virtude e certezas de desespero
jamais me encontrei
e me perdi ainda mais
sai por escolha própria
uma mão me puxou para fora
uma mão, um par de olhos, uma cabeça e um abraço
em cima do poço, eu coloquei uma pedra
tampei e deixei lá dentro tudo o que um dia me fez rir falsamente e chorar desesperadamente
achei que a vida continuava do lado de fora
e que seguir errando era o melhor dos caminhos
o que eu jamais poderia imaginar é que, a cada passo, encontro uma pedra
e a cada pedra que chuto, o poço se abre novamente e traz de volta tudo o que eu queria esquecer
as marcas que um dia pensei ter deixado enterradas insistem em reaparecer em forma de feridas
feridas dolorosas que me fazem chorar, como se estivessem sendo abertas naquele instante
como se toda a dor que um dia eu senti retornasse e eu fosse obrigada a sentir novamente
não importa o que eu diga, não importa o que eu faça
as marcas de um passado que insiste em sempre cruzar o meu caminho jamais me deixaram esquecer o monstro que um dia eu fui