26 de mar de 2010

estranho prazer #1

após passar toda a tarde tricotando, dona dirce espera dar seis da tarde pra sair de casa carregando panelas, potes, vidros, roupas, periquito e papagaio dentro de imensas sacolas plásticas e de tecido. arrasta tudo até o ponto mais próximo e dá sinal pro ônibus mais cheio que avista. Faz questão de aceitar o lugar que a mulher de 35 anos, (que acorda às 5:30 pra arrumar, dar café e levar os dois filhos à escola, passa o dia trabalhando de pé e agachada numa loja de sapatos do outro lado da cidade, volta pra casa só pra fazer o jantar, arrumar a casa, cuidar dos filhos e dormir as suas tradicionais 4 horas de sono) lhe oferece. desce num ponto próximo ao centro da cidade. Dá uma volta no quarteirão carregando suas coisas. senta-se por cinco minutos numa praça cheia apenas para descansar e volta para o ponto, para pegar mais um ônibus lotado em direção à sua casa.torce para chegar cedo. afinal, amanhã, quando der sete e meia da manhã, recomeçará sua via crucis de uma hora e meia até o centro da cidade com seus pertences, para dar a mesma volta no quarteirão, sentar por cinco minutos na praça apenas para descansar antes de pegar o ônibus lotado de volta para casa.os filhos e netos acham que ela está caducando.
o que eles não sabem é que ela sente um estranho prazer em se aproveitar da bondade alheia.

2 comentários:

Nell Siqueira disse...

Nosssssssssa!
Eu adorei. Vou ler bem mais de uma vez pra poder começar a falar.

Aliás, que demora pra postar, hein! Tava revoltada?

Nell Siqueira disse...

Achei!
É essa minha dificuldade: Não consigo escrever sobre um evento que não aconteceu; eu fico perdido pensando hum tá bom, vamos ver como começa essa estória, aí não sai nada rs
Ah, em tempo: claro que além da 'squizo' dona Dirce e suas caminhadas minimalistas tinha que aparecer uma personagem envolvida com sapatos; sinal de que a fixação "imeldiana" persiste? rs